torta de morangos sem chabu

27 de maio, 2009 

marido fez aniversário e eu me animei pra fazer um bolinho. na minha sempre fértil imaginação, eu faria um bolo tão lindo e gostoso que ele seria publicado aqui, com um título assim: “um senhor bolo para um senhor aniversariante”. e eu contaria aqui o passo-a-passo da realização de uma obra-prima da confeitaria, elogiaria o marido e agradeceria por ele ter nascido há tantos anos atrás. e os leitores ficariam impressionados com minhas habilidades de boleira e se apaixonariam pelo meu esposo…

depois de algumas horas procurando o “senhor bolo” nos meus livros, decidi preparar um cheesecake de mel. lindo na foto, com uma cobertura de canela em pó parecendo marmorizada e triângulos de praliné “espetados” na massa. li e reli a receita tantas vezes que decorei os ingredientes e nem precisei fazer uma lista do que precisava comprar no supermercado. e segunda-feira à noite, com mascarpone, cream cheese, leite condensado, creme de leite e bolachas Maizena adquiridos, coloquei a mão na massa. em menos de uma hora, o bolo estava na geladeira e o praliné esfriava sobre o tampo da pia. e eu tinha certeza que acordaria no dia seguinte e encontraria um bolo firme, lindo, sobre o qual eu espetaria triângulos de praliné, e que fotografaria pra publicar aqui, e o final da história seria exatamente igual ao que eu tinha imaginado.

praliné

mas o andar da carruagem foi outro. acordei e o bolo estava mole. tudo bem, a gente só comeria à noite, então diminuí a temperatura da geladeira e fui trabalhar. 10 horas depois, o bolo estava, hm, mole. a cobertura de canela estava firme mas quando eu colocava um dedo sobre ela, a sensação era a de estar tocando um colchão de água. torcendo pra que essa fosse apensas uma sensação e que o bolo estivesse quase no ponto, quebrei o praliné, pousei delicadamente sobre o bolo, cobri a fôrma com papel manteiga e lá fomos nós: eu, o marido e o bolo pra casa da sogra. chegando lá, oh, decepção: o chacoalhar do carro fizera o creme, a canela e o praliné se misturarem e o bolo, que já não tinha consistência de bolo quando saímos de casa, naquela hora já não tinha nem mais cara de bolo. foi comido como um creme gelado, gostoso, mas decepcionante.

cake

então pra não deixar o aniversário do marido passar em branco por aqui, resolvi publicar a receita da torta de morangos que fiz no aniversário passado. essa torta pode ser encontrada em qualquer padaria a preço de banana, mas é muito melhor se feita em casa, e com amor. é, marido, te amo. obrigada por ter nascido!

tortam

Torta de morangos

Ingredientes para a massa:

250 g de farinha de trigo
125 g de manteiga gelada
50 g de açúcar
1 pitada de sal
1 ovo
Raspas de limão
1 colher de sopa de água (se for preciso)

Ingredientes para o recheio:
500 ml de leite
4 gemas
80 g de açúcar
40 g de maizena
Essência de baunilha

Para a cobertura:
Uma caixa de morangos
Dois kiwis maduros ou 20 uvas
125 ml de água
50 g de açúcar
½ colher de sopa de maizena

Preparo da massa:
Peneire numa vasilha a farinha, o açúcar e o sal. Acrescente a manteiga gelada e cortada em pedacinhos e vá misturando com a ponta dos dedos até formar uma farofa. Junte o ovo e as rapas de limão e amasse. Se a massa não estiver com muita liga, acrescente uma colher de sopa de água gelada. Faça uma bola com a massa, embrulhe em filme plástico e leve à geladeira por 30 minutos.

Preaqueça o forno a 200 graus. Abra a massa numa superfície polvilhada com farinha e forre uma forma redonda (de até 26 cm de diâmetro) previamente untada com manteiga e enfarinhada. Para que a massa não perca a forma quando estiver assando, cubra-a com papel alumínio e coloque por cima feijões crus. Asse a massa por 15 minutos, retire os feijões e o papel e leve a massa para assar por mais 15 minutos. Espere esfriar e desenforme.

Preparo do recheio:
Leve o leite para ferver, com duas tampas de essência de baunilha. Em uma vasilha, misture os ovos, o açúcar e a maizena (dissolvida em um pouco de leite). Quando o leite ferver, tire do fogo e junte à mistura de açúcar e ovo, misturando levemente. Leve a mistura ao fogo baixo e mexa até que ela engrosse e fique com a consistência de um creme. Tire do fogo e deixe esfriar.

Montagem:
Coloque o recheio de creme sobre a massa já assada e decore com os morangos (e outras frutas) lavados e picados conforme sua preferência. Para dar aquele brilho das tortas de padaria, leve ao fogo o açúcar, a maizena e a água e mexa até ferver. Continue mexendo; essa mistura engrossará e formará uma geléia transparente. Quando ela estiver mais consistente, desligue o fogo e pincele delicadamente a geléia sobre a superfície da torta.

direto da Praça Roosevelt: soupe au pistou

19 de maio, 2009 

grafite

Ando com saudades de quando morava bem no centro da cidade. O nosso apartamento era um terço do tamanho do atual, mas tinha um terraço enorme onde a gente plantava alecrim, sálvia, tomilho, lavanda e manjericão. Tinha a feira da praça Roosevelt, todo domingo. Tinha mais silêncio à noite. Tinha o frango assado da Marajá e os sucos da Palma de Ouro. Tinha o Barbosa, o porteiro mais educado que já conheci e que resolveu, há algumas semanas, voltar pro Ceará sem se despedir de ninguém. Tinha os grafites que a prefeitura insistia em limpar e que eram sempre renovados. E tinha as luzes do centrão, aquelas alaranjadas que eu voltei a ver na Virada Cultural… Ai, ai.

Quando fico muito saudosista, logo me lembro de todas as coisas boas de morar onde estamos agora, da nossa casa grande, da cozinha onde eu posso inventar mil pratos, da proximidade com os cinemas, do acesso fácil para amigos e familiares…e tento, sempre que posso, freqüentar mais o centro. E foi por isso que decidi voltar a freqüentar a feira da praça Roosevelt. Ela não é sensacional, mas é caricata, divertida, autêntica. Tem gente de todos os tipos, velhos, gringos, cachorros, putas e modernos. Tem a doidinha que grita “reage praça Roosevelt”, o vendedor de carne que oferece café, a moça dos temperos que sempre coloca um chorinho na sacola do cliente, e todos os grafites novos ao seu redor, que a gente descobre e fotografa quando dá.

E domingo, quando fomos fazer as compras da semana, a feira tinha todos os ingredientes pra eu fazer uma deliciosa soupe au pistou. Ela é um prato tradicional da região da Provence, ali no sul da França, e à primeira vista parece boba, boba. Até que você toma a primeira colherada e se encanta com o contraste entre a crocância dos legumes e a cremosidade do pistou, que é o primo francês do molho pesto, sem pinolis (mais leve e mais barato!). O segredo da sopa é deixar os legumes cozinharem sem ficar molengas ou pastosos. Por isso, tem que seguir a ordem de cozimento de cada um: primeiro, entram aqueles que precisam de mais tempo, e por último, os que rapidamente ficam cozidos.

Quanto mais frescos estiverem os ingredientes, melhor! Mas se você for fazer essa receita e precisar usar algum ingrediente enlatado, não se culpe, acontece. Eu mesma usei feijões brancos cozidos enlatados. Mas aproveitei a feira e tratei de comprar feijões ao natural, para uma próxima vez.

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Sopa ao pistou (soupe au pistou) - para 6 pessoas

Para a sopa:
250 g de feijão branco de molho na véspera ou em lata
2 litros de caldo de vegetais
2 batatas em cubos
2 talos de salsão picados
2 alhos-porós em cubos
2 nabos redondos em cubos
2 cenouras
2 dentes
30 ml de azeite de oliva extra virgem
3 abobrinhas italianas em cubos
350g de vagem fina em cubos
sal e pimenta-do-reino moída na hora

Para o pistou:
3 dentes de alho
Folhas de 1 maço de manjericão
50 g de queijo parmesão ralado
60 ml d azeite de oliva extra virgem

Numa panela, cozinhe o feijão em água até ficar macio. (se estiver usando feijões em lata, pule essa etapa!) Em outra panela, ferva o fundo e junte a batata, o salsão, o alho-poró, o nabo, a cenoura, o alho e o azeite. Quando estiverem quase macios, junte o feijão, a abobrinha e a vagem. Cozinhe até todos os ingredientes ficarem macios. Tempere com sal e pimenta.

No pilão ou processador, amasse o alho, junte o manjericão e processe até obter uma pasta. Transfira para uma tigela e com um garfo, incorpore o queijo. Junte o azeite, acerte o tempero com sal e pimenta e sirva o pistou já misturado à sopa ou à parte.

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depois da gripe, uma sopa e um aforismo

13 de maio, 2009 

Passei quase 10 dias muito gripada. Perdi o feriado, fiquei sem energia, fiz umas costuras tortas e, na cozinha, as produções não foram além de um ovo frito com couve. Minhas refeições de enferma chegaram ao cúmulo de um simples misto frio da padaria da esquina, que eu comi sonhando com uma sopa bem quente. Nos meus devaneios febris, eu acreditava que não só teria forças pra fazer a tal sopa, como para fotografá-la e divulgar a receita. Aliás, eu imaginava que conseguiria fazer mais de uma sopa, usando todos os ingredientes que tinha comprado assim que dei o primeiro espirro, vislumbrando uma cura pela alimentação: abóbora japonesa e alecrim, batatas e agrião, espinafre e feijão branco… Meu corpo só estava aguentando ficar jogado no sofá, mas minha cabeça estava muito ativa, criando títulos para todos os posts que eu publicaria aqui sobre todas as minhas incríveis e reconfortantes sopas.

Mas a gripe me derrubou de um jeito que eu mal entrei na cozinha e passei os dias muito doente, deitada e muito coberta, elaborando aforismos sobre comfort food, do tipo: “comfort food só é comfort food quando feita pela pessoa amada”. E enquanto eu filosofava, a abóbora mofou, o espinafre estragou, o alecrim fresco secou…

Incrivelmente, o agrião resistiu. E as batatas também. E o alho poró só perdeu um pouquinho do seu frescor. Então assim que eu consegui me desvencilhar das cobertas e passar algumas horas de pé sem ter vontade de voltar pra horizontal, decidi preparar uma das minhas sopas prediletas: a sopa leve de agrião, que eu aprendi no livro The Conran Cookbook – um dos primeiros livros de culinária que eu ganhei e um dos mais queridos, até hoje.

Fazer essa sopa é muito simples, a não ser por uma tarefa que eu acho muito complexa: lavar o agrião. Há muitos anos, preparando esta mesma receita, resolvi lavar as folhas usando luvas de borracha, mas no meio do processo acabei cortando um dos dedos e permitindo que todas as lesmas e caracóis infiltrados no maço pudessem entrar em contato com a minha pele. (na verdade nada disso aconteceu, mas eu fiquei petrificada de medo só de pensar nessa possibilidade) Ui! Eu tenho um misto de pavor e nojo de lesmas e caracóis que é realmente muito sério. Dessa vez, pedi ajuda ao marido, que lavou todas as folhinhas com muito esmero e bravura. E em pouco mais de uma hora, a gente pôde saborear uma sopa perfumada sem ser ardida, cremosa sem ser gorda, e muito confortante. E eu mudei meu próprio aforismo para “comfort food pode ser comfort food quando feita com a ajuda da pessoa amada”.

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Sopa leve de agrião (para 4 pessoas famintas ou 6 controladas)

Ingredientes:
30 g de manteiga
2 batats grandes sem casca e cortadas em cubos
1 cebola sem casca e cortada em cubos
2 talos de alho poró, fatiados
1,5 litros de caldo de galinha ou legumes
sal e pimenta do reino
1 maço de agrião
100 ml de leite
creme e leite fresco para servir (opcional!)

Preparo:
Numa panela grande, derreta a manteiga. Junte a cebola, as batatas e as fatias e alho poró e deixe amolecerem em fogo baixo por 10 minutos, mexendo para que não escureçam. Adicione o caldo, acrescente sal a gosto e aumente o fogo. Ferva por 10 minutos e acrescente o agrião picado grosseiramente. Deixe cozinhar até que as folhas estejam macias, mas ainda verdes (isso deve levar uns 15 minutos). Corrija o sal, adicione pimenta do reino a gosto e retire do fogo.

Bata a sopa no liquidificador, depois coloque de volta na panela, acrescente o leite, misture bem e deixe esquentar de novo, sem ferver. Se quiser, sirva com um pouco de creme de leite fresco. E se quiser que a sopa fique mais bonitinha, decore com umas duas folhas de agrião.

A foto não ficou lá essas coisas, mas a sopa ficou muito gostosa.

pra enfrentar a aridez do outono, um bolo macio e molhado de amêndoas e laranja

01 de maio, 2009 

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O outono é minha estação preferida. Pelas temperaturas amenas, dias de céu mais azul, a cor das folhas que vai mudando, tudo me encanta. Mas sei que pra quem vive em São Paulo, isso tem um preço alto: a secura do ar. É assim: você acorda, abre a janela, vê o azul intenso do céu, dá uma piscada pra se adaptar à luz outonal, respira fundo e…. se sente em pleno deserto! O ar entra rasgando o nariz, cortando a garganta e desce pesado até os pulmões. Você precisa de água, muita água durante o dia…e quando vai deitar à noite, leva muito tempo pra dormir, de tanto que o nariz dói. Desde ontem, tenho sentido uma dificuldade enorme pra respirar, uma sede infinita e um cansaço que me impede de caminhar por mais de cinco minutos. A secura do ar, combinada com a poluição da cidade, faz meus olhos arderem e minha pele coçar. Por isso, estava bem animada com a possibilidade de fugir de São Paulo neste feriado e curtir de verdade o outuno em qualquer lugar onde fosse possível respirar, enxergar e até dormir melhor.

Mas por motivos alheios à nossa vontade, ficamos em São Paulo (pelo menos hoje…), então decidi que cozinharia alguma coisa pra me ajudar a enfrentar essa secura com bom humor. E não seria uma sopa! E combinaria com a garrafa térmica de chá que preparei de manhã. E não exigiria uma ida ao supermercado pra comprar algum ingrediente indispensável pra execução da receita.

Ontem, por caso, esbarrei em duas receitas de bolo que me pareceram forte candidatas a uma aventura na cozinha: bolo de figos e avelãs, ou bolo de amêndoas e azeite. À primeira vista, me interessei mais pela receita de bolo de figos, mas como não suporto o cheiro de avelãs assando, passei um bom tempo pensando se poderia substituí-las-las por nozes, castanha do Pará ou amêndoas. Hoje, estava praticamente decidida a fazer a receita com amêndoas, quando percebi que não tinha figos em casa. E se a idéia era não colocar os pés na rua (nada contra a rua, o problema era falta de energia pra andar 4 quarteirões até o supermercado), mudei os planos e resolvi assar o bolo de azeite e amêndoas.

Sempre fico apreensiva quando me vejo tentada a preparar receitas encontradas em sites americanos. Acho meu paladar bem pouco parecido com o deles e tenho certa repulsa a muitas combinações de ingredientes, massas melequentas ou doces demais. O que me convenceu a fazer esta receita foi justamente o comentário da autora do blog, que dizia preferir bolos com menos açúcar e por isso mesmo tinha ficado super satisfeita com esse.

Bom, e depois de preparar uma massa descomplicada, assá-la sem problema nenhum, me encantar com seu cheiro e cobrir o bolo com uma calda leve e muito interessante (eu já tinha feito coberturas com leite e açúcar de confeiteiro, mas nunca havia acrescentado manteiga, que realmente fez diferença), meu humor mudou radicalmente e passei o dia bem melhor.

bolo

Bolo macio de amêndoas e laranja

Ingredientes para a massa:
1 xícara de farinha de trigo
½ xícara de farinha de amêndoas
1 ½ colher de chá de fermento em pó
1 colher de chá de sal
3 ovos grandes
¾ xícara de açúcar
½ xícara de azeite de oliva
½ colher de chá de essência de baunilha
¼ colher de chá de essência de amêndoa
Raspas de um limão siciliano ou de 1/ 4 de laranja
½ xícara de suco de laranja

Ingredientes para a cobertura:
2 colheres de sopa de manteiga sem sal
1 xícara de açúcar de confeiteiro
3 colheres de sopa de leite
Gotas de suco de limão
½ xícara de amêndoas em lascas, tostadas

Preparo:
Aqueça o forno a 180 graus. Unte com manteiga e farinha uma fôrma redonda de bolo de 23 cm de diâmetro.

Em uma tigela média, misture as farinhas, o fermento e o sal e reserve.
Em uma tigela maior, quebre os ovos e bata um pouco. Acrescente o açúcar e mexa rapidamente. Adicione o azeite de oliva e bata até que mistura esteja um pouco mais clara e mais grossa. Misture as essências, as rapas e o suco de laranja.
Transfira os ingredientes secos para essa mistura e bata até obter uma massa homogênea.

Coloque a massa na fôrma untada e leve para assar por cerca de 35 minutos. O bolo estará pronto quando a massa começar a soltar das laterais da fôrma e, ao inserir um palito na massa, ele sair seco. Deixe o bolo esfriar um pouco na fôrma e depois deixe transfira para uma grelha.

Enquanto o bolo esfria, faça a cobertura. Coloque a manteiga em uma panela pequena e leve para derreter em fogo médio. Quando começar a fazer bolhas, abaixe o fogo e mexa com cuidado até que a manteiga comece a ficar um pouco mais escura. Desligue o fogo e deixe a manteiga esfriar.

Peneire o açúcar de confeiteiro em uma tigela, misture o leite até obter uma calda grossa mas homogênea, e misture então a manteiga. Se quiser, acrescente algumas gotas de limão para não ficar muito doce. Misture as amêndoas e despeje a cobertura sobre o bolo. Se conseguir, espere o bolo esfriar completamente e a cobertura ficar mais estável antes de cortá-lo (eu não consegui esperar!)

PS: esta é uma receita da chef Gina de Palma, que foi criada especialmente para o Dia dos Namorados. Aqui, Gina explica porque a amêndoa é muito mais romântica que o chocolate. E eu concordo com ela!