
todo dia a gente fazia tudo sempre igual: ela me acordava antes do despertador tocar, com patadas na cara. eu descia da cama, ela me seguia até o banheiro e depois a gente ía pra cozinha - eu cantando alguma música boba e ela correndo, faminta. eu servia ração e água pras duas e pra ela ganhava um pratinho especial, com um pouco de papaia. depois ela subia na pia pra beber água da torneira e enquanto eu preparava o meu café da manhã, ela já tinha descido da pia, subido em alguma cadeira e pulado na mesa, onde cheirava o pão, o queijo, brincava com alguma embalagem até ser expulsa dali. então ela se acomodava em algum canto e ficava observando. quando eu acabava o café, ela já estava pronta pra me seguir até o quarto, o banheiro, onde fosse. se eu ficasse trabalhando em casa, ela se acomodava ao lado do meu computador e passava horas observando. seu eu fosse trabalhar fora, eu já sabia que quando girasse a chave na porta de casa, à noite, ela seria a primeira a me receber.
essa foi a minha vida com a Zazá nos últimos três anos. até que ela começou a ficar menos animada, mais encolhida nos cantos, comer menos e beber mais água. e fazer xixi em qualquer lugar. e vomitar água. em poucos dias, a forma dela tinha mudado de “coelho gordo” pra “frango light” e corremos pro veterinário. ela ficou uma semana internada e na sexta passada, depois de muitos ultrasons, exames de sangue e de contraste, foi diagnosticada com insuficiência renal crônica, que é muito comum em gatos velhos e pode, em poucos casos, acometer gatos novos como ela. não existe cura pra IRC, só paliativos pra retardar a progressão da doença: soro diário, alguns medicamentos, ração especial e controle com o nefrologista.
quando a gente estava aceitando a ideia de que ela nem sairia do hospital, Zazá melhorou, teve alta e voltou pra casa. magra, assustada, meio cambaleante, enxergando pouco. passamos o final de semana com o estômago apertando, chorando e pensando em eutanásia, até decidirmos que ela vai ter uma “aposentadoria digna”. enquanto ela viver - e pode ser uma, duas, três semanas, um ou mais meses, ela vai receber muito carinho, atenção, comida boa (atum, franguinho, como recomendou a doutora) e água à vontade. mas não vamos submetê-la à tortura diária de receber uma bolsa de soro por via subcutânea, porque ela fica super estressada e gasta toda a energia dela rosnando e tentando se desevencilhar da agulha. pode ser que isso reduza a expectativa de vida dela, mas também vai dar um pouco mais de qualidade de vida, de conforto e sossego, e pra nós isso é mais importante.
essa foto foi tirada no domingo à noite. de lá pra cá, a Zazá está bem melhor, tem subido em janelas, camas, cadeiras, às vezes mia, me recebe na porta de casa e agora há pouco comeu um pratinho de papaia. a nossa velha rotina não volta mais, mas estamos conseguindo estabelecer uma nova, e está sendo bom. triste e bom.




