
eu não sei como foi o seu dia dos namorados, mas o meu foi bem pouco glamouroso. não teve rosas vermelhas, nem champagne, nem bombons, nem cartão de coração, nem bossa nova, nem bistrozinho francês. e sabe? foi muito bom. é que afrodisíaca, pra mim, é a vida como ela é: sem a trilha sonora e o photoshop dos anúncios, sem os frufrus que insistem em tentar nos vender, sem grandes epifanias. o dia-a-dia, com suas feiúras e dores, seu tédio e repetições, e também, porque não, quando dá, gratas surpresas, pequenos milagres, é o que eu gosto, é meu combustível. então nosso dia dos namorados foi exatemente um reflexo do que somos e de como estamos agora: uma família, nós quatro: papai, mamãe, Nina e Heitor. com tempo curto, um apê grande pra cuidar, muitas responsabilidades, coluna arrebentada de ficar inclinados segurando o Heitor que dá seus primeiros passos. e muito amor.
o domingo começou com uma ida ao sacolão, depois ao supermercado (olha que glamouroso: compramos até tábua de passar roupa, em pleno dia dos namorados!), onde encontramos um casal de amigos que também têm um bebê, e mais um amigo solteiro (que comparou as três sacolinhas de compras dele com o nosso carrinho lotado de coisas). de lá, corremos pra casa, a hora do almoço do Heitor já tinha passado, ele estava bravo, desci do carro com ele, subimos correndo, esquentei a papinha (músculo, mandioquinha, espinafre, arroz integral), ele comeu, depois esfregou as duas mãos no prato (e depois na testa), não me deixou tirar o babador, andou um pouco e quis sentar na cozinha. aproveitei e comecei a fazer o almoço: macarrão com legumes fresquinhos: abobrinhas em tiras, cenourinhas em pedaços, cogumelos de Paris fatiados. tudo temperado com azeite, sal e tomilho.

quando o marido trouxe as compras, enquanto a gente desembalava tudo (e o Heitor continuava sentado, examinando uma cebola), resolvermos tomar um drinque, um pisco sour pronto que trouxe do Chile. ah, pelo menos tomamos em taças de champagne! brindamos de pé, no meio de uma dúzia de caquis, da tábua de passar roupa, de rolos de papel higiênico.

montamos a mesa na sala, que é onde a cadeirinha do Heitor está, e onde a gente imaginou que ele ficaria durante o almoço. mas não: depois de se entediar com a cebola, ele pediu pra levantar, ensaiou alguns passos e sentou de novo. e a gente almoçou tranquilamente, escutando uma mistura de Racionais com “cabeça, ombro, joelho e pé, joelho e pé”, espiando o Heitor, bebericando pisco sour, com o coração feliz.







